Musicado

Não.

Há sim, som.

Não – não é mais.

E eu até queria, verdade, ver alguém que não vejo cheio de nãos passados – nãos.

Mal posso,

duvido.

E  se duvido já se foi, não é?

Como quando você pensa que falta alguma coisa na lista de compras e… bem…

Não é mais.

Há sim, o som – que é outra coisa.

Mas isso?

Somos mais

mas

mas

não existe

Me beija pra eu rir, depois a gente vê o que faz, tá tocando samba lá fora .


Sobre o Belo

A beleza como uma concepção interna (inerente ao desejo) não é algo moderno. Os gregos já falavam disso, mas tenho a impressão que lá, a “liberdade” era diferente (nem maior nem menor!). Há instâncias, hoje em dia, de delimitação estética bastante evidentes como a publicidade, a televisão, a indústria cultural. Mas nada que subtraia nossa “intenção de desejo” que vem de dentro. Algo, ao que me parece, predominantemente subjetivo.

A partir de Freud podemos entender o desejo como uma instância inalcançável (nem instinto, nem pulsão), mas objeto que se subtrai ao chegarmos perto (desejo realizado = morte); configura-se como um acontecimento da linguagem, pois se dá na construção do “eu” com o mundo através da fala e da comunicação com o outro (as observações de Freud sobre a formação do complexo de Édipo podem ser um exemplo). Mais além, depois de Foucault se quisermos demarcar bem, a história das vontades humanas se alonga, ganha corpo e substância, podendo-se afirmar que o desejo é construção histórica, coletiva e individual ao mesmo tempo, pois é fruto de discursos difusos e recorrentes que nos cercam enquanto “formas de poder”: um dado constituinte que formará o sujeito mesmo antes dele ser “sujeito” (ou seja, mesmo antes da formação psicológica do infante).

Daí as formas de se perceber o belo: na construção individual (Freud) e coletiva (Foucault) da linguagem, do posicionamento enquanto ser no mundo. Ao mesmo tempo em que abraçamos um padrão sem saber os motivos, também abraçamos sua excentricidade em proporção: aquilo que foge ao controle, que nega o centro – seja em como perversão (Freud/Lacan); ou, para mim mais corretamente entendido, como formas de transgressão e resistência (Foucault, Deleuze, Badiou, etc).

O desejo e o belo então se traspassam e se encontram, melhor, se tangem por uma fina linha que os faz andar juntos em vários momentos. O que viremos a gostar ou não (como belo, bom, ético) depende tanto da coesão determinante do meio quanto de disposições aleatórias e internas:

curvas ou linhas corporias,

um carro novo,

um falo ereto,

uma roupa diferente,

um gosto sexual,

uma vertente de pensamento,

um presidente,

um desejo de dominação,

uma textura de pele.


Valor de Peso e o retrato de Joyce

James Joyce

James Joyce

Não lembro qual professor meu (ou li isso num blog?) disse: “não se criticam autores vivos, afinal, eles podem revidar, por isso, critiquem os mortos”. Há exceções. Alguns vivos nunca irão revidar, não é de sua natureza; e mais fortemente ainda: alguns mortos, por certo e datado do destino, serão revidados por seus fiéis.
Esse é o caso de Joyce.  São Joyce. É um pecado pecaminoso falar contra Joyce o ícone transcendente do romance moderno. Joyce é para o Romance o que Brecht é para o Teatro, o que Pink Floyd é para o pop/rock. Não é a extensão de sua obra ou a aceitação de seu público que os define, mas sim o caráter de dobradiça: de conseguir se sobrepor e dar à porta a vazão das passagens (do devir – daquilo que virá).

Aqui venho falar de “O Retrato do Artista Quando Jovem“. Não tenho coragem de atentar contra Finnegans Wake nem contra Ulisses; em verdade, nem me arrisquei a lê-los ainda. Mas porque toda essa reviravolta em prólogo somente por esse livro dos menores? Talvez porque ali se inicie a aurora do autor. Joyce se demarca ali como Stephen Dedalus e a partir de Dedalus transcorrerá. Tem lá seu peso para o autor, para a época, para o caráter genético (de gênese) da dobradiça, mas se sustem ali – se você considerar isso pouco, claro.
É um livro pungente, impressionante nas reviravoltas de linguagem e enredo, mas incrustado numa tradição alheia, num mundo que, além da imagem arbitrária dos doutos literários, não existe aqui em terras brasileiras. Deixa desenrolar-se em um egocentrismo clássico da modernidade (que Joyce veio a definir), e que flui bastante até hoje na literatura ocidental, mas se aloca num centro/tempo casto, puritano, familiar, moral e religioso que nos deixa muitas vezes a pergunta: “meu deus essa cara pira errado numa coisa que não é pra tanto!”… Os diálogos nos confundem e trazem uma experiência estética – até então – nova (mas hoje bem desgastada). Enfim, o pilar dos marcos do que dará como contemporâneo. O peso de sua própria vida no peso de sua própria obra: Joyce.
Aí virão as bocas dos alfinetadores dizendo os benefícios de toda essa lenga-lenga. Pra mim, desmesurada, aqui, em terra de índio. Afinal o livro é denso pela história dos nomes e nem tanto assim, pela dureza de sua capa e conteúdo.
Pronto, falei!

Vladmir Kush

Pra quem quer que se perca nesse blog:

Esses dias lembrei, não sei por que, de um comentário do Flávio Umaguma (sugiro o blog!) em algum lugar desse mundo, sobre as pinturas de Vladmir Kush. Ele passou o link, eu copiei e deixei murchando na gaveta. Era maracujá.

Por isso o tema alimentício…

(ps: Vladmir tem outras várias imagens que não de “comida”, todas excelentes, aliás! [algumas ainda melhores que essas que postei]).

Aki o link: http://www.vladimirkush.com/home.php


EMO! Back Home!

Ha tempos não escrevo sobre música… Escolhi Yellowcard quase por acaso. Estava simplesmente passeando e escutando a música. Prestendo atenção na letra, coisa que a gente geralmente não faz…

YELLOWCARD – BACK HOME

O espírito dessa nossa época carrega um pouco disso: está vazio e frouxo, sem diagnósticos e sem cura, rodeado dos zeros e dúvidas ante o caminho pra casa que nem o sol da Califórnia pode amenizar; estupramos tão bem os anos oitenta e noventa que agora pousamos bêbados sobre o vácuo daquele gozo… Ah como eu gostava de Guns’n’Roses, Aerosmith, Pearl Jam, Nirvana (emos dos anos 80-90)… Bandas como Yellowcard, gostemos ou não, existem e expressam bem alguns não-sentidos dessa “juventude” atual. Falo algo apenas por mim (e nem sou assim tão jovem): é impossível escutar algumas letras e não pensar: “pqp! Não é que é verdade!”. Sei que tem um povinho que vive na época do Mazaropi, achando que escutar Metallica é ser ‘do contra’ e que RAUL realmente não MORREU…
Yellowcard, Good Charllote, New Found Glory, Fall out Boy, Simple Plan, My Chemical Romances, Panic at the Disco, 30 seconds to Mars… Algumas gosto mais, outra nem tanto. São pontas desse multifacetado Iceberg chamado Rock; têm lá sua relevâcia, seus méritos, seus dotes…

Aqui segue a letra da música em inglês. Continue lendo


As Cidades Invisíveis

As cidades InvisíveisPeguei esse livro como uma indicação de uma indicação no blog RODAPÉ DO HORIZONTE (recomendo). Na verdade procurava o Cavaleiro Inexistente ou Cosmicômicas; ambos de Italo Calvino. Mas A surpresa foi grande quando, em mãos de As Cidades Invisíveis, me vi jogado num mundo distante onde a fantasia e a relaidade se mastigam.

Adoro o destino indelével e suas coincidências desvairadas. Logo esse livro de personagens fantáticos: Marco Polo e o imperador Kublai Khan. O livro é um relato das cidades que Marco passou. Ele atravessa domínios físicos e encontra cidades inexistentes: Pessoas fictícias, razões desvairadas, signos camaleônicos, personagens e pensamentos povoam cada linha dessa narrativa, provando ao imperador a vida pungente dentro de cada uma de suas crônicas absurdas. Do predio ao rio, do deserto aos baldes das lavadeiras: tudo, enquanto cidade, é um pulsar dentro do ser humano.
Certamente é uma chacota que esse livro tenha caído em meu colo. Ainda mais depois de, durante tantos anos, ter projetado minha existência em um lugar que até então eu considerava concreto… Bah!

Burrice minha. Salve Calvino. Obrigado Bruno! (hehehehe). Leitura nociva, no bom sentido, pra quem pretende viajar – mesmo que dentro de casa!
Só mais um ponto: não são nem nunca foram inexistentes as cidades de Calvino. Não são nem nunca serão reais as que vivemos.


A Morte de Artêmio Cruz

A morte de Artêmio CruzTá aí um livro que me rendeu um pesadelo. Há mais ou menos um ano eu leio “A Morte de Artêmio Cruz” e finalmente chego a seu final. Não que o livro seja pesado, chato, maçante. Não, não! Longe disso. É um livro delicioso de se ler e como há tempos eu não lia! Mas as circustâncias de sua leitura é que me tomaram tempo. Cada vez que pensava no livro me resignava, traía minha vontade de querer entender os joguetes do autor, a história, as verdades de “Artêmio Cruz” (talvez não de Carlos Fuentes). Em resumo: uma vida de memórias em um leito de morte seco, amargo e cru.
Toda narrativa é dotada de uma consciência camaleônica. Não apenas artêmio morre. O livro morre com o personagem. É um daqueles romances obviamente sutis, como só me lembro de ter lido em Incidente em Antares de Érico Veríssmo. Empatam os dois autores (contemporâneos de seu tempo) nesse ponto: na sutileza óbvia que são a vida e a morte – Artêmio poderia até ser um dos cadáveres de Antares, delatando as podridões da sua carne, de seu tempo, política, e virtudes!
O modo como a narrativa ocorre é um deslumbre excepcional. A cronologia atemporal faz o leitor se perder deliciosamente num méxico magnético revolto em sua revolução, crencas e sábias impossibilidades (como qualquer canto do Brasil). E somente agora, somente quando escrevo esse mal-gosto, somente nesse fim que neguei tanto, compreendo Artêmio Cruz. Sinceramente? Não gosto dele. Não…
Enchergo nesse personagem a minha (e talvez a sua) forma desfigurada de vida. Mesmo munido de todas as peripécias e aventuras que se recheiam em suas jornadas ele é nada mais que um homem frouxo, um saco de merda ambulante, um ser que, como qualquer outro, confundiu-se na história e apenas fluiu. Numa sensibilidade primorosa, ao fim, devolveu à vida, e aos leitores de sua vida, a porcaria e o excremente que acumulou até o dia de sua morte. Sutileza contida no estômago. NECESSARIAMENTE, no estômago do personagem. O quarto mal ventilado, as quase-viúvas mesquinhas, os empregados, o padre constantemente amaldiçoado, um gravador (instrumento inegável da verdade) e a dor nos intestinos… Essa foi a morte de Artêmio Cruz.
Morte resignada que teima em vingar.
Leitura resiganda, minha, em encontrar esse ocaso.


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