A Casa dos Budas Ditosos

A casa dos budas ditosos

A casa dos budas ditosos

Toda pornografia é um joguete do cotidiano. Nem mais nem menos. E não há muitos limites a não ser que coloquemos algum. Por isso toda restrição é um exagero. Os prazeres do sexo e das causas, dos amores e das profanações coincidem com as vontades mais rasas. É assim que muitas situações ordinárias acabam por tornarem-se os melhores joguetes: a mordidinha e o beijinho, o xingamento e o tabefe, o incesto e o estupro. Somos todos contidos dia a dia por nossas vontades mais simplórias e animalescas (por isso mesmo mais abusadas) justamente querendo colocá-las em pratica nas regiões abaixo da linha do equador. Uma adoração e uma profanação ao mesmo tempo!

Essa obra que lhe presenteio pode não parecer tão incisiva quanto as diversas putas e os variados tarados de Dalton. Para mim, é uma obra mais subjetiva, como querendo e talvez conseguindo conversar com as várias mulheres de Clarice. Mas não deixa de lado a potencialidade de ser muito, mais muito menos pudica que elas ou que quaisquer umas das personagens de Jorge Amado, por exemplo. O enredo do livro encarna uma mulher-luxúria. Uma multiplicidade que se propõe ao perfeito pecado: puro desde sua infância e, em nenhum momento, efeito de seu sexo (que na obra é tão explícito)…

A mulher que narra sua vida, sentada em uma mesinha de escritório é a consciência mais gostosa de si – como se extirpasse a cada folha nova seu grandioso maquinário do gozo. A meu ver, em sua própria ciência, ela conversa com esse pecado e faz dele seu confidente. Engraçado notar que o sexo, ou a sexualidade dessa velhota setentona, não é comando nem capacho, apenas é.

Tinha de ser uma mulher! Sempre vocês são piores e melhores nesse acúmulo de si, em sua grande maioria (mesmo, por exemplo, as declaradamente homossexuais), não sabem ser medianas. Suas células e suas mitocôndrias devem ter aprendido a rebelarem-se devido aos muito longos anos de castração que sofreram. Hoje, desatam nós despudorados, vórtices e gânglios ninfomaníacos, nódulos de pecados e mais pecados em seus corpos. Desvelam-se sempre, mesmo que temtem se esconder em personagens: como a delicadas putinhas sulamitas, a prostitutas conservadoras, a fogosa velhota plurisexuada. Todas sempre fazendo, contando e desejando aquilo que de mais lhe comum lhes satisfaz. Jogam com o cotidiano e sei que jogam! Envolvendo seus amantes em mares suculentos e molhados no meio de sua pele. Daí esse escorregar constante nos dedos safados de tiozinhos taradões, nas glandes suculentas de sultões ferozes, nos pêlos escorregadios de seus amigos de estudos ou até mesmo nos cabelos delicados de um ninfo menores de idade.

Falemos a verdade! Todos temos lá nossos nódulos e vórtices emaranhados com as costuras desse mundo. Eu com os meus, você com os seus, e assim muitos outros com muitos outros mais, todos embaralhados, atrelados, sempre tensos e passíveis a um puxão descuidado. Geralmente, mas geralmente mesmo, apenas por pura luxúria.

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ps: Pena Fernanda Torres ter ficado tão pouco tempo com a peça em cartaz (além de ter sido o ZÓIO DA CARA quando estava em Curitiba)

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Sobre Willy Barp

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6 respostas para “A Casa dos Budas Ditosos

  • Madame Amarante

    Vc tirou a expressão “abaixo da linha do Equador” de algum blog alheio? rs

    Essa tua passagem está muito boa:
    “E não há muitos limites a não ser que coloquemos algum.
    Por isso toda restrição é um exagero. Os prazeres do sexo e das causas, dos amores e das profanações coincidem com as vontades mais rasas”.

    No texto vc poderia ter colocado mais “palavras porcas” (como diz Trevisan).
    Falando nele: leu “A polaquinha”?

    VISÃO GERAL: No teu blog, gosto muito das seções: PENA NEGRA (em especial) e CARNIÇA.

  • Madame Amarante

    Sei que o Chico fala que ñ existe pecado do lado de baixo do Equador,
    mas eu tbm escrevi um texto falando dessa tal linha!
    (Ao menos, acho que escrevi, rssss)

  • Givoleinesom

    aheuihaiuehiuae
    é claro que escreveu.
    Essa passagem é sua, com todos os créditos. Mas eu me apropriei!
    =P
    aheuiheaihaei
    valeu pelos comentários! mesmo-mesmo!

  • Madame Amarante

    Tá, tá, tá!
    permito a apropriação, maaaaaaas apenas pq o texto em questão era pra ti!
    hauhauahuaahu
    Bjocas!

  • Flávio UmmagummA

    É a natureza humana, por mais que se tente cimentá-la sempre haverá algum desejo a nos confrontar e contradizer.

    Nunca li Ubaldo, mas já tinha ouvido falar desse livro, achei curioso.

    Abraço, Cara.

  • A História da Perversão Humana « Asas do Corvo

    […] de Vôo: A Casa dos Budas Ditosos de João Ubaldo Ribeiro. Não é o livro que menciono, mas passa na tangente dessa idéia. Passa, […]

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